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Rochagem

Os extremismos dos defensores e dos críticos ao uso da rochagem como fonte de macronutrientes.

Hoje o uso de rochas para fornecer macronutrientes tem crescido e é amplamente estudado, mas há muito extremismo em torno do assunto. Ouvi em um podcast um renomado agrônomo, professor doutor de uma grande universidade, dizer que rocha serve para construir casas; dias depois participei de uma palestra de um agrônomo ambientalista que trabalha apenas com rochagem e justifica que os adubos tradicionais acidificam o solo e degradam o meio ambiente. A discussão, quando abriu para perguntas, foi que nem toda propriedade tem nível tecnológico para trabalhar com rochagem exclusiva.

Concordo que pode funcionar, mas não acho correto transformar esse sistema em recomendação universal ou romantizar o tema, principalmente para propriedades que não têm capacidade técnica para trabalhar com a incerteza e a liberação lenta dos nutrientes. Para mim, afirmar que a rochagem exclusiva não funciona, ou que ela substitui totalmente os fertilizantes convencionais, sem uma análise abrangente, é leviano.

O ponto a que se deve atentar é não transformar um “eu tenho um sistema em que consigo trabalhar exclusivamente com rochagem” em “então toda agricultura deveria abandonar os fertilizantes convencionais e usar rocha”.

Uma propriedade que trabalha com rochagem exclusiva precisa, na minha visão, ter um sistema de manejo muito bem ajustado, porque com o uso exclusivo de rocha você perde parte da capacidade de corrigir rapidamente uma deficiência nutricional. Em uma lavoura apresentando deficiência de K em pleno desenvolvimento, por exemplo, com uma fonte convencional de K de alta solubilidade você consegue disponibilidade e resposta rápida. Com uma rocha de baixa reatividade e solubilidade, você não tem essa mesma capacidade de intervenção. Por isso, quanto maior a dependência exclusiva da rochagem, maior tende a ser a necessidade de conhecimento e acompanhamento do sistema — ou seja, demanda maior nível tecnológico.

Não podemos colocar todos os “adubos tradicionais” dentro de uma única categoria e dizer simplesmente que fertilizante químico degrada e acidifica o solo. Algumas fontes nitrogenadas, principalmente aquelas cujo N sofre nitrificação, podem contribuir para a acidificação do solo ao longo do tempo — isso é um fenômeno químico real, mas não significa que usar NPK vai destruir o solo. O que importa é o balanço entre acidificação, exportação de bases, correção com calcário, dose, manejo e sistema produtivo — coisa com que a agricultura do Cerrado aprendeu a trabalhar muito bem. Não se aplica fertilizante indiscriminadamente sem analisar o pH: segue-se uma sequência de análise de solo → adubação → monitoramento → calagem quando necessária → gessagem quando indicada → nova análise.

Então o problema não é simplesmente o fertilizante, é a fertilização sem manejo adequado da fertilidade do solo — porque uma rocha também não é magicamente neutra ou benéfica. Antes de cravar uma indicação, deve-se responder às perguntas: qual rocha? Qual mineral? Qual dose? Qual velocidade de reação esperada? Qual efeito sobre o pH? Qual balanço de bases? Qual disponibilidade dos nutrientes? Alguns minerais podem efetivamente contribuir para a neutralização da acidez e o fornecimento de bases, enquanto outros praticamente não terão esse efeito. O argumento precisa ser mineralógico e agronômico, e não ideológico.

Acredito que esse sistema possa funcionar, mas não acredito que ele seja universalmente aplicável. Uma fazenda com alto nível tecnológico tem análise química frequente, análise foliar, agricultura de precisão, histórico de produtividade, acompanhamento nutricional, boa capacidade de investimento, assistência técnica, aplicação correta dos insumos e planejamento de vários anos. Essa propriedade consegue trabalhar com uma estratégia mais sofisticada de construção gradual da fertilidade e pode inclusive experimentar um sistema integrado de rocha + matéria orgânica + adubação mineral complementar + plantas de cobertura + biologia do solo, e acompanhar o resultado.

Uma fazenda com baixo nível tecnológico tem pouca análise de solo, pouco acompanhamento técnico, capital limitado, pouca capacidade de corrigir problemas durante a safra, baixa capacidade de investir em experimentação e necessidade de retorno relativamente imediato. Para essa propriedade, recomendar que abandone o fertilizante convencional e utilize exclusivamente rochagem é uma recomendação perigosa e altamente arriscada, porque, se a rocha não liberar o nutriente na velocidade esperada, o produtor pode perder o time do manejo e não ter capacidade financeira ou técnica para corrigir o problema posteriormente. Esse risco agronômico é muito mais sério para o pequeno produtor.

Esse é um ponto que acho fundamental: conhecimento como tecnologia agrícola. Uma propriedade pode ter pouca mecanização e ter excelente manejo de solo, assim como pode existir uma fazenda enorme, cheia de máquinas, mas com péssimo manejo. Eu consideraria como “nível tecnológico” principalmente a capacidade de medir → interpretar → aplicar → acompanhar → corrigir o solo.

Quanto mais dependente você fica de um insumo de liberação lenta, mais importante se torna o conhecimento do comportamento daquele sistema e do tempo que cada rocha leva para ter um bom efeito residual. E isso pode ser uma vantagem enorme. Mas se o produtor precisa de produtividade nesta safra — a soja está crescendo agora, o milho está crescendo agora, a deficiência está acontecendo agora —, não dá para usar algo que vai fazer efeito a longo prazo. A pergunta a ser feita deve ser: a rocha libera o nutriente na velocidade compatível com a demanda da cultura?

Em minha opinião, talvez o modelo mais interessante seja o híbrido: rochagem para construção de fertilidade e fornecimento gradual de determinados nutrientes; calcário para correção da acidez; gesso quando houver indicação agronômica; fertilizantes minerais para suprir demandas imediatas; matéria orgânica e cobertura para aumentar a ciclagem; plantas de cobertura para reciclar nutrientes; biologia do solo para aumentar a eficiência do sistema. Nesse modelo, o fertilizante convencional deixa de ser o pilar absoluto da fertilidade e passa a ser uma ferramenta complementar.

Isso é bem mais responsável do que defender que os adubos convencionais são venenos. Os problemas ambientais com fertilizantes são reais, mas também existe um problema ambiental na própria rochagem: minerar, britar, moêr e transportar toneladas de material consome energia e gera impacto. A pergunta a ser respondida deve ser qual sistema se encaixa melhor na realidade do meu cliente, qual sistema produz mais alimento com menor impacto ambiental e com qual eficiência ao longo do tempo.

Rochagem exclusiva exige um nível de conhecimento e planejamento que pode ser incompatível com determinadas propriedades e sistemas produtivos. Além disso, é necessário conhecer a composição do material. Uma rocha natural pode conter elementos potencialmente tóxicos em concentrações que tornam sua aplicação agrícola inadequada, dependendo da composição, da origem e da dose, entre outros fatores — e isso se torna ainda mais importante quando estamos falando de resíduos industriais ou de materiais de origem desconhecida. Natural não significa seguro.

Para mim, a questão não deve ser a escolha entre “rocha” e “adubo”. É determinar qual combinação de fontes de nutrientes é agronomicamente, economicamente e ambientalmente adequada para aquele solo, aquela cultura, aquela propriedade e naquela janela de tempo.

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