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A química do pasto: metabólitos secundários e nutrição de ruminantes

Estudar metabólitos secundários de forrageiras tropicais me fez perceber que as forrageiras têm um potencial que vai muito além de fornecer proteína, energia e fibra.

Quando o produtor escolhe uma forrageira para o rebanho, alguns números costumam vir primeiro: produção de matéria seca, proteína, fibra e digestibilidade. Eles são fundamentais, mas existe outra parte dessa história. Além dos nutrientes, as plantas carregam compostos capazes de interferir no ambiente ruminal e na maneira como o animal aproveita a dieta.

São os chamados metabólitos secundários, grupo que inclui taninos, saponinas, flavonoides, terpenos e alcaloides. Na planta, essas substâncias participam principalmente de mecanismos de defesa e adaptação. Já na nutrição de ruminantes, esses compostos chamam atenção pela capacidade de interagir com os microrganismos do rúmen.

E falar em microbiota ruminal é falar diretamente de nutrição. Bactérias, fungos, protozoários e arqueias participam da fermentação dos alimentos e permitem que o bovino aproveite componentes que sozinho não conseguiria digerir. Assim, quando uma substância da dieta modifica a microbiota ruminal, ela também pode alterar o aproveitamento dos nutrientes.

Um exemplo vem de uma cultura bastante conhecida no campo brasileiro: a cana-de-açúcar. Pesquisas recentes têm estudado extratos ricos em polifenóis da cana na alimentação de ruminantes. Em estudo publicado em 2026 com vacas Holandesas em lactação, a suplementação promoveu mudanças na microbiota ruminal e tendência de aumento dos ácidos graxos de cadeia curta e do propionato. Outros trabalhos com cordeiros também encontraram alterações na microbiota e redução da produção de metano. Os resultados, porém, variam conforme dose, dieta e categoria animal.

O interesse nesses compostos não está em eliminar os microrganismos do rúmen, mas em modular a fermentação, favorecendo determinadas populações e rotas metabólicas e reduzindo processos que representam perdas de nutrientes e energia.

Essa ação também se aproxima de uma discussão importante na produção animal: o uso racional de antimicrobianos e a resistência bacteriana. Alguns metabólitos vegetais apresentam atividade antimicrobiana e vêm sendo estudados como parte de estratégias nutricionais para modular populações microbianas. Ainda há muito a compreender antes que esses resultados se tornem recomendações práticas.

No fim, talvez seja preciso olhar para uma forrageira além da proteína, da fibra e das toneladas produzidas por hectare. Existe uma química acontecendo dentro dessas plantas — e entender como ela conversa com os microrganismos do rúmen pode abrir novos caminhos para uma pecuária mais eficiente.

Referências

MARINO, E. D. et al. Effects of sugarcane-derived polyphenol supplementation on ruminal fermentation, methane emission, and microbiome in Holstein cows. Frontiers in Animal Science, v. 6, art. 1739442, 2026. DOI: 10.3389/fanim.2025.1739442

PRATHAP, P. et al. Effects of sugarcane-derived polyphenol supplementation on methane production and rumen microbial diversity of second-cross lambs. Animals, v. 14, n. 6, art. 905, 2024. DOI: 10.3390/ani14060905

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